sexta-feira, 15 de junho de 2012

Celebrar

'No passado, celebrar era uma maneira de aproximar a comunidade. O mesmo acontece no tempo de hoje. Sejam encontros culturais, ocasiões de culto em grupo ou mesmo jantares especiais com amigos, todos nós precisamos de momentos para nos reunirmos e reafirmar a importância do nosso grupo'. [Tao. Meditações Diárias]

Dia das mães. Por mais que as pessoas digam que é uma 'data comercial', eu, minhas irmãs e meu pai sempre combinávamos de fazer algo diferente para minha mãe. Seja sair para comer em um restaurante, juntar a mesada para dar um presente ou até brincar que ela sequer poderia ser contrariada... Nunca nos importamos se estávamos sendo varridos pelo sistema capitalista ou não, mas sim conseguir dizer - ou expressar - naquele dia que ela era uma pessoa muito especial para nós. E essa era a tradição nessa família.

Quando me tornei mãe, estava apreensiva com a data que estava para chegar. O que haveria na minha nova e recém criada família? Meu marido nunca tinha comemorado o dia das mães. Apesar de ter morado com a mãe a vida inteira, fora criado pela bisavó. E quando perguntei se não iriamos fazer NADA naquele dia, ele desajeitadamente se ofereceu a fazer macarrão com molho de salsicha. 'Ora, que pelo menos seja uma linguiça, vá!' reclamei.

No ano seguinte, dia das mães nublado e um cenário em casa não mais animador: a filha com pneumonia e o marido com virose. Os dois deitados em um colchonete na sala, quase um acampamento para enfermos. Naquele momento, entendi que o meu dia das mães não era o segundo domingo do mês de maio mas sim todos os dias do ano em que a minha pequena sorri, faz birra, grita, chora, pula, corre e meu marido chega do trabalho suado, pensativo, amoroso ou irritado. E entendi que cada família tem ou cria a sua tradição.

Foto do flickr.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Amor sem palavras

O post .Art Mama. da Mai suscitou dois assuntos meus, que vou postar em partes.

Quando conto às minhas amigas que quando eu era pequena passava todas as férias na casa da minha avó, muitas me perguntam se ela me contava sobre o Japão, as dificuldades dos primeiros imigrantes no Brasil... A verdade é que nunca trocamos uma palavra.

Nascida no Japão, veio já casada para o Brasil aos 18 anos de idade e, até seus 80 anos, não aprendeu a falar português. Perdeu o marido cedo mas o genro logo assumiu os negócios no sítio e, se mudando para a cidade, frequentava o Seicho-no-ie, onde tinha amigas japonesas. Meus pais falavam japonês mas eu não.

Teve um dia que eu e minhas irmãs queriamos pular corda mas minha prima tinha medo de cair e se machucar no chão de cimento. Como crianças que éramos, resolvemos pular no quarto encarpetado. Depois de brincar um pouco, notamos que minha avó não estava em casa, nos perguntamos onde poderia ter ido. Quando ela voltou, estava junto da minha madrinha que contou que ela tinha ficado louca quando viu a gente pulando corda dentro de casa, mas como não sabia se comunicar, saiu correndo para a casa dela. Levamos a maior bronca e esse episódio nunca mais me saiu da memória.

Apesar dessa não-comunicação, quando ela faleceu senti uma tristeza inexplicável por aquela mulher que sempre esteve ali, silenciosa, com suas histórias enclausuradas que permaneceram naquele corpo. Não conseguia entender de onde vinha o amor por aquela pessoa a quem nunca dirigi a palavra. Mas ela era mãe da minha mãe, e hoje vejo que esse fio invisível que nos ligava já era suficiente para florescer tanto carinho e afeto.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

. art mama .


papai, o que a gente vai dar pra mai de dia das mães? (R.)

nossa. dia das mães. meu primeiro. ao receber os parabéns por aí, tive uma sensação estranha. é mesmo, sou uma mãe. e as pessoas me reconhecem como tal. talvez sejam as fotos da K. que eu coloco no facebook. irresistivelmente fofa. filhotes nascem assim pra gente ter vontade de cuidar mesmo, acho.

pra mim isso de ter filhos sempre foi uma coisa dividida. os prós e os contras se equilibravam na balança. muito se devia a alguns círculos que eu frequentava: amigos-família; amigos-contra-família. fazer uma escolha era sempre perder alguma coisa.

não dava pra imaginar ter um nenê e frequentar algumas cenas experimentais. não exatamente pelas ações. em alguma medida, por causa da exposição às escolhas de vida de algumas pessoas. um preconceito de mão dupla talvez. por exemplo, já antes da gravidez, só o fato de não consumir entorpecentes (nem álcool), fazia com que alguns artistas se incomodassem com a minha presença. isso foi coisa de conversar mesmo com os amigos. entendo algumas pessoas não admitirem presença voyeur, ou algo que pareça um confronto de moralismos. mesmo "sem julgamentos", parece que alguma coisa não se encaixa. muita gente desapareceu da minha vida depois que virei mãe. mesmo pessoas de quem gosto muito. acham inconcebível o lance familiar todo.

já os amigos-família sempre estranharam alguma coisa. os relacionamentos, uma certa tendência a lidar com imagens de morte. nascer uma criança é afirmação de vida. como lidar com a morte tão presente sempre? quando eu penso no que me atrai nessa busca, me parece uma prestação de contas com o passado. como se eu precisasse ficar atenta para fazer alguma coisa melhor agora, pras pessoas que estão vivas e perto de mim.

sinto um remorso imenso quando penso na minha avó, de não ter ficado mais tempo perto dela antes do seu falecimento. por isso fico tão próxima da minha mãe. e independente de data comemorativa, sinto uma gratidão imensa por estar aqui. depois que K. nasceu, e mesmo com o convívio com maridones e as crianças, nunca mais senti vazio no peito. me surpreendeu muito ter uma família. me percebo muito mais atenta às ambiguidades.

escolho essas imagens acima do artista japonês tatsumi orimoto pra me relacionar neste dia das mães. algumas pessoas vêem as fotos da mãe com alzheimer como um jeito de tirar proveito de algo dramático a fim de aparecer. produzir imagens assim também é um jeito de prestar atenção e ficar próximo. eu vejo ali em 'art mama', algo que queria ter feito com minha avó. não pelas imagens. o estar junto mesmo.

. desenhos .


esses dias vi isto aqui: desenhos que foram transformados em brinquedos.

brinquedo, ilustração, real. pros meninos aqui em casa, desenho animado, por exemplo, parece muito mais real do que um "filme de adulto". eles não ficam com medo da espada do samurai (adoramos filmes de samurai), mas morrem de medo da bruxa (menos a kiki) ou do inimigo ultra-poderoso do super herói. 

eles também criam categorias (com a nossa "ajuda" - repetição, claro): brinquedo, coisa perigosa, divertido, engraçado, coisa da cozinha, coisa do banheiro, faz mal, é sujo. se for colorido é brinquedo. difícil explicar alguns objetos com os quais eles não podem brincar: faca vermelha, tesoura rosa, agulha azul, cerâmica amarela. 

argila, caneta, lápis. tudo desenho. pra eles é fácil associar. demorei tanto pra entender. uma professora da faculdade teve que mostrar o arame saindo pela parede pra eu entender o desenho sem ser lápis sobre papel. dança. fotografia. objeto. que mais, que mais. independente de categorias. me interessam os modos de vida. desenho como modo de perceber e mapear estados de estar vivo.

desenhos do R. (quase 5 anos)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

. arte na escola diva gomes .


paulo lorenzeti é amigo querido que leciona artes em escola pública no município de mauá - sp. ele atualiza um blog ( http://artenaescoladivagomes.blogspot.com.br/ ) com as ações e reflexões sobre as atividades realizadas com seus alunos. ali eu sempre encontro coisas bonitas e portas para comunicação com as crianças.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

. pontes .












vendo os posts dos papais de plantão no facebook, me aproximei disto:

me fez pensar no cotidiano daqui de casa: o quanto as crianças estão cheias de televisão nas brincadeiras delas e em como eu mesma me afastei do brincar. outro dia R. (quase 5 anos) me chamou, chutando e socando o ar: "brinca comigo?" e eu só pude responder: "não estou com vontade; aliás, acho que não gosto mais de brincar, ou pelo menos, não disso (luta)". "do que você gosta?" "gosto de falar com as pessoas". realmente me sentia assim, e conversamos um tempão sobre isso apesar da frustração dele.

há algum tempo decidi sempre dizer como me sinto de verdade, ao invés de me arrastar em uma coisa de má vontade ou criar "situações estranhas de adultos que mentem". não sei se é algo bacana de se fazer de fato, mas por enquanto foi a melhor maneira que encontrei para criar nossas pontes. um sentimento e uma conversa sobre o que acontece.

o problema não é brincar, mas talvez "lutar contra o alienígena usando o poder dos raios supremos" -  até gosto que eles brinquem assim, mas eu mesma não fantasio esse jogo.  tudo o que vivo com eles me faz resgatar as minhas próprias experiências da infância. o que eu fazia nessa idade? lembro agora que eu adorava fazer livros: dobrava algumas folhas ao meio e enchia de desenhos e colagens. fazia a capa, contracapa, criava o nome da editora, o título. adorava lidar com papel, cola, tesoura, lapis de cor, caneta, régua, grampeador. R. adora desenhar. pronto. disso sei que podemos brincar juntos. vou tentar lembrar de mais coisas e com o tempo trazer tudo isso de volta. 

me coloco em uma ativação "brincadeira full time": cozinhar (cortar e misturar os alimentos),  limpar a casa (borrifador de água + um pano), fazer compras no supermercado (carrinho de compras vira carro que desvia de obstáculos - rios, jacarés, penhascos). mas não estabeleço muito aquele momento: pausa, agora estamos brincando. se não há essa legenda, parece que não existe a experiência. "você nunca brinca com a gente, mai". deve ser por isso que pra cada episódio do desenho, os novos golpes vem com novos títulos.

logo K. vai crescer mais (agora ela está com 7 meses) e deixar de ser um nenê. será que ela vai querer brincar comigo?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Um pequeno guerreiro dentro de uma flor



Se para minha primeira filha eu sabia como o nome dela começaria, para a segunda eu sabia que terminaria com 'o'.

A maioria dos nomes japoneses femininos terminam com o. Mais especificamente com a sílaba 'ko' que significa criança, filha. Eu não queria que o nome soasse tão japonês, era uma tarefa difícil. Eu e meu marido juntamos sílabas e mais sílabas, mas nada me encantava.

Cheguei a cogitar desistir da idéia. Tenho uma amiga chamada Nami e sempre achei bonito, significa 'onda'. Aí a história se repetiria: a imagem de uma marolinha na praia, mas no final um 'tsunami' mudando completamente a minha vida.

Mantivemos a idéia inicial, as semanas iam passando e ela estava próxima de nascer. Lembrei do livro 'Negras Raízes' e o nascimento de Kunta Kintê: eu simplesmente iria olhar o rostinho dela e susurrar o nome em seu ouvido. Mas não foi isso que aconteceu. Não conseguia pensar em nada. Passaram-se quase quinze dias e resolvemos dar o nome de uma personagem de desenho animado - de novo - que terminava com a letra 'o'.

Fomos para o cartório registrar. Papéis quase todos assinados, a tabeliã resolve fazer uma ligação e, falando baixo, parecia que era algo a ver com o nome de nossa filha. Depois que desligou, começou a digitar no computador, reimprimiu todos os papéis e pediu para que a gente assinasse de novo, com a cláusula de que éramos responsáveis pela grafia do nome - porque ele terminava com a letra 'o'.

Quando buscamos um nome para ela, em português só encontramos Carmo e Consuelo. Nomes femininos com a letra 'o' existem. Mas, pensando que no Brasil a maioria dos nomes masculinos terminam com 'o', talvez de forma inconsciente eu quisesse acrescentar um toque masculino para minha filha: a força de um guerreiro dentro de uma flor, o yang dentro do yin, duas forças adversárias buscando o equilíbrio.

Ilustração: Bahman Dadkhah, illus. for Poems for Children (Iran 1972), 2-page spread

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Furin



Eu só sabia de uma coisa: queria que o nome dela começasse com Fu.

Fu era o personagem de um anime que eu gostava. Fuu pra transcrição exata. Não tinha o kanji, mas fazendo uma pesquisa, era a leitura chinesa para o ideograma de vento.

Uma brisa nova, novos ares. Era tudo o que eu queria naquele momento. Mas mal eu sabia que ao invés de uma brisa, seria um 'taifu' (tufão em japonês) na minha vida, virando tudo de cabeça para baixo - para o lado bom.

Ao invés de planejar coisas, deixei-as correr ao sabor do vento. Permiti o acaso e a surpresa entrarem na minha vida. Com a liberdade de uma semente de dente de leão (tampopo), voei e conheci novos horizontes.

Essa é a origem do nome da minha filha.

Foto deste flickr.
Furin: wikipedia | fjsp

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Duas gravidez. Dois bebês. Uma mãe.



Primeira Gravidez.
Leitura: Brasilbabycenter e A encantadora de bebês
Parto: Cesárea
Restrições: Até três copos pequenos de cerveja por semana
Amamentação: Rigorosamente de 3 em 3 horas, acordando o bebê na madrugada
Pai: responsável pelo banho do bebê e muitas brigas com a mãe - cada um achando que sabe cuidar melhor do bebê
Fotos: duas sessões de fotos grávida e muitas só do bebê
Banho do bebê: banheira
Fraldas: descartáveis

Segunda gravidez.
Leitura: Brasilbabycenter uma vez a cada 3 meses. Relatos de parto do site da Casa Moara.
Parto: Natural.
Restrições: Açúcar e carboidratos devido a diabetes gestacional
Amamentação: Livre demanda
Pai: cuidando da filha mais velha, banhos só nos finais de semana, logo chega a um acordo para que as crianças não se estressem
Fotos: duas fotos grávidas e quase todas só do celular
Banho do bebê: ofurô e chuveiro
Fraldas: descartáveis intercalando com fraldas de pano.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

. tampopo .




tampopo, タンポポ, dandelion, dente-de-leão. mesmo com tudo coberto pelo concreto, ele teima em crescer nos cantos, buracos, terrenos abandonados. talvez por isso ele esteja no cenário pós holocaustos nucleares em um dos 'sonhos' de kurosawa. fragilidade e resistência.

quando eu era criança, gostava muito de encontra-lo por aí. hoje, quando caminho com as crianças, sempre aponto e mostro quando vejo um. contando as histórias das coisas de que gostava na infância, penso aproxima-los um pouco dos meus afetos e assim, também de mim. 

às vezes a gente não se dá conta de como as pequenas coisas têm importância. vão diminuindo a distância entre sentimento e acontecimento.