sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Por um fio

Por um fio, da série Fotopoemação, 1976/2010 
Ana Maria Maiolino
ampliação digital de fotografia em preto e branco

52 x 79 cm


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Neurose


  

Há não muito tempo atrás, para alguém ver minhas fotos de infância, a pessoa tinha que estar sentada na sala da minha casa, abrir o armário (que era obstruído por uma mesa, eu tinha que arrastar a mesa para poder abrí-lo), pegar o álbum e - geralmente - eu acompanhava o folhear das páginas, fazendo as vezes da legenda das fotos.

Quando dou um scroll pelo facebook e vejo as fotos dos filhos que meus amigos postam, algumas me deixam em pânico. O filho fazendo o seu primeiro pipi sentado na privada, a filha tomando banho, os brinquedos ganhados no aniversário, o evento na escola. E quem está folheando todos esses álbuns, será que temos mesmo o controle de tudo isso? Acompanho blogs de mães, está tudo ali descrito, a primeira papinha, quando deu o primeiro passo... coisas que só pessoas muito próximas, que frequentavam a minha casa, sabiam de mim. Eu sinceramente não sei o efeito para os filhos de nascerem e crescerem com essas "intimidades" tão expostas.

Sou uma pessimista.

domingo, 7 de outubro de 2012

. dia, mês, ano .












1 ano. mesmo prestando atenção, tem coisas que o cotidiano não nos deixa perceber. aniversário, rito de passagem: um ano se passou. o que aconteceu, o que mudou, o que ficou. claro que eu percebi que as roupinhas já não cabiam mais. sentou. levantou. aumentou a quantidade de comida - e mudou o tipo dela. deu passos. andou. se desloca pra onde quer. chora mais. chora menos. dorme. reclama. sorri e gargalha. brinca. imita e testa nossas reações. 

coisa simples em casa. era pra ser nano festa. como ninguem confirmou presença, achei que viriam os parentes, pouca gente. mais de quarenta pessoas no apartamento. k. já tinha aprendido a bater palmas, então quando cantaram 'parabéns', abriu um sorriso e deu gritos batendo as mãos. uma verdadeira festa.

o tempo da criança é uma martelada nas nossas percepções. tudo é marcado. quando uma coisa nova acontece, é sempre uma ficha caindo. a primeira vez que. as coisas todas que fazemos sem perceber pra eles é um grande desafio. e vencidos, determinam em ações as metáforas das nossas próprias conquistas.

no dia-a-dia ainda não consegui me adaptar com a rotina casa, crianças e outras atividades. tudo uma grande bagunça. as dúvidas, que antes eram muitas, continuam existindo. mas mais amigas se tornaram mães, outras famílias em contato, e todas as figurinhas trocadas foram acalmando tanta ansiedade. bem mais calma, esse estado de espirito tem deixado mais leves os dias atarefados de dormir tarde e acordar cedo.

tão cansada. tão feliz. vai entender.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012


Tenho estado muito pouco aqui. Com a menor começando a comer e engatinhar, grande parte do tempo tenho me dedicado a preparar a papinha e a tomar cuidados para evitar qualquer acidente.

A segunda filha é a segunda chance da mãe: é a oportunidade de fazer coisas que eu achava que poderia ter feito melhor e conseguir. É o momento de repensar algumas idéias que se instalaram na sua cabeça com o primeiro rebento e descobrir que elas não eram verdades universais.

 Tenho trabalhado muito no 'lar' e pouco na 'profissão', por isso resolvi acordar alguns sentidos meus que estavam parados. Ler ou desenhar são tarefas mais raras porque exigem muito da minha atenção, então comecei a usar mais o ouvido: entre uma mamada e outra deixo rolando uma palestra do Café Filosófico para escutar e esta aqui da Rosely Sayão é ótima para refletir sobre a educação dos filhos: Clique aqui.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

quando nascem as estrelas



Minha avó foi o meu primeiro contato consciente com a morte. Já tinha ido no funeral de uma tia, mas na época não entendia absolutamente nada do que estava acontecendo. Não entendi porque ela tinha algodões no nariz e a única diversão naquele lugar era brincar entre as colunas que sustentavam o caixão.

Voltando a morte da minha avó, eu tinha acabado de voltar do primeiro dia da escola e recebemos um telefonema. Minha irmã mais velha atendeu e ficou muito nervosa, disse que a avó estava muito doente. Minha mãe sabe-se lá para onde tinha ido, não voltava. Quando voltou, minha irmã foi falar com ela, que rapidamente começou a fazer outros telefonemas e de repente começou a fazer as malas, separar roupas. E disse "esta é para o funeral". Na minha ingenuidade, pensei "como ela sabe que a vovó vai morrer?". Mas eu fiquei feliz, porque viajar para a casa da minha avó sempre era muito bom.

A viagem foi tensa. Insetos, mariposas e borboletas iam se espatifando no vidro do carro, atraídas pela luz do farol. Costumávamos viajar de manhã, mas desta vez saímos depois do almoço, chegamos já estava escuro. A casa estava toda iluminada e aberta. Gritei contente pelo nome da minha tia que morava com a avó. Minha irmã me olhou com reprovação. Não entendia.

Entramos e minha mãe se abraçou com meu tio. Fui para o quarto da minha avó. Vazio. Comecei a entender. Lágrimas começaram a correr pelo meu rosto.

Enfim, depois de muito choro, flores, terra, missa, veio a festa. Os xintoístas comemoram nos funerais. Era estranho estar comendo, bebendo e até rindo ali entre parentes. Me disseram que a tradição é comemorar todos os anos, até completar talvez 40 ou 50 anos - não lembro ao certo. Comentaram o caso de uma conhecida que organizou a festa de um parente que nem chegou a conhecer, apenas para manter a tradição.

A Mai já falou aqui e é algo que também já refleti muito: tendo uma explosão de vida como um bebê dentro de casa, é praticamente impossível não pensar na sua antítese; novas gerações chegam e as velhas precisam dar passagem. Essa é a lei da natureza.

 Hoje fiquei sabendo do falecimento da minha sogra, uma nova estrela brilha no céu.

terça-feira, 31 de julho de 2012

. fragilidade e resistência .



o prato na cozinha no armário na pia sobre a mesa. acidente cai quebra. desenhos. ela não pode ficar aqui é perigoso pode se cortar ou colocar os pequenos cacos dentro da boca engolir coisa pior.

aqui deixo de escrever muitas coisas. as dúvidas mais importantes acabo guardando, sem coragem de buscar, de expor. um jeito de me aproximar dessas questões como imagens de troca: dizer que existem fragilidades, mesmo que não se toque propriamente no assunto. tão impressionante ver os dias passando e tudo o que me parece natural, normal, cotidiano, pra ela é um evento, uma descoberta, a vida inteira. e é nessa beleza que encontro a coragem e o medo que sinto sendo mãe dela.

 - pelo menos procuro buscar isso, sempre que consigo prestar atenção - 

. exercícios de atenção . 

preparar a comida (sopa ou papinha), colocar nos potinhos, esperar esfriar, colocar as tampas, congelar, deixar dois potinhos na geladeira, temperar com alho e salsinha na panela todos os dias, antes de servir, lavar as mamadeiras, a chupeta, ferve-las, colocar água filtrada fervida na garrafa térmica, sete medidas de fórmula no pote medidor, tirar a fralda sem derrubar o cocô antes de fazer mais xixi, limpar bem por o creme de assaduras, colocar a fralda, colocar ou tirar a roupinha, as roupas são tão pequenas no varal, segurar a cabeça na inclinação certa para não entrar shampoo no olho, na orelha a água o cotonete a toalha de banho limpa, a temperatura do leite da papinha da água do banho, os brinquedos e o que pode virar brinquedo neste momento porque esqueci de trazer, música e dança ela dança eu tento perder o medo de dançar e penso em dançar mais e dançar quando for velha como se fosse algo sério de se apresentar para um público, será que ela vai dançar desenhar crescer feliz, acalmar o choro descobrir o porquê, tão bom o cheiro quando ela deita sobre o peito quando ela dorme junto comigo mas ela deve dormir no quarto dela, as outras crianças marido avó parentes meus afetos perto longe vontades o que tem de ser feito ponto.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Celebrar

'No passado, celebrar era uma maneira de aproximar a comunidade. O mesmo acontece no tempo de hoje. Sejam encontros culturais, ocasiões de culto em grupo ou mesmo jantares especiais com amigos, todos nós precisamos de momentos para nos reunirmos e reafirmar a importância do nosso grupo'. [Tao. Meditações Diárias]

Dia das mães. Por mais que as pessoas digam que é uma 'data comercial', eu, minhas irmãs e meu pai sempre combinávamos de fazer algo diferente para minha mãe. Seja sair para comer em um restaurante, juntar a mesada para dar um presente ou até brincar que ela sequer poderia ser contrariada... Nunca nos importamos se estávamos sendo varridos pelo sistema capitalista ou não, mas sim conseguir dizer - ou expressar - naquele dia que ela era uma pessoa muito especial para nós. E essa era a tradição nessa família.

Quando me tornei mãe, estava apreensiva com a data que estava para chegar. O que haveria na minha nova e recém criada família? Meu marido nunca tinha comemorado o dia das mães. Apesar de ter morado com a mãe a vida inteira, fora criado pela bisavó. E quando perguntei se não iriamos fazer NADA naquele dia, ele desajeitadamente se ofereceu a fazer macarrão com molho de salsicha. 'Ora, que pelo menos seja uma linguiça, vá!' reclamei.

No ano seguinte, dia das mães nublado e um cenário em casa não mais animador: a filha com pneumonia e o marido com virose. Os dois deitados em um colchonete na sala, quase um acampamento para enfermos. Naquele momento, entendi que o meu dia das mães não era o segundo domingo do mês de maio mas sim todos os dias do ano em que a minha pequena sorri, faz birra, grita, chora, pula, corre e meu marido chega do trabalho suado, pensativo, amoroso ou irritado. E entendi que cada família tem ou cria a sua tradição.

Foto do flickr.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Amor sem palavras

O post .Art Mama. da Mai suscitou dois assuntos meus, que vou postar em partes.

Quando conto às minhas amigas que quando eu era pequena passava todas as férias na casa da minha avó, muitas me perguntam se ela me contava sobre o Japão, as dificuldades dos primeiros imigrantes no Brasil... A verdade é que nunca trocamos uma palavra.

Nascida no Japão, veio já casada para o Brasil aos 18 anos de idade e, até seus 80 anos, não aprendeu a falar português. Perdeu o marido cedo mas o genro logo assumiu os negócios no sítio e, se mudando para a cidade, frequentava o Seicho-no-ie, onde tinha amigas japonesas. Meus pais falavam japonês mas eu não.

Teve um dia que eu e minhas irmãs queriamos pular corda mas minha prima tinha medo de cair e se machucar no chão de cimento. Como crianças que éramos, resolvemos pular no quarto encarpetado. Depois de brincar um pouco, notamos que minha avó não estava em casa, nos perguntamos onde poderia ter ido. Quando ela voltou, estava junto da minha madrinha que contou que ela tinha ficado louca quando viu a gente pulando corda dentro de casa, mas como não sabia se comunicar, saiu correndo para a casa dela. Levamos a maior bronca e esse episódio nunca mais me saiu da memória.

Apesar dessa não-comunicação, quando ela faleceu senti uma tristeza inexplicável por aquela mulher que sempre esteve ali, silenciosa, com suas histórias enclausuradas que permaneceram naquele corpo. Não conseguia entender de onde vinha o amor por aquela pessoa a quem nunca dirigi a palavra. Mas ela era mãe da minha mãe, e hoje vejo que esse fio invisível que nos ligava já era suficiente para florescer tanto carinho e afeto.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

. art mama .


papai, o que a gente vai dar pra mai de dia das mães? (R.)

nossa. dia das mães. meu primeiro. ao receber os parabéns por aí, tive uma sensação estranha. é mesmo, sou uma mãe. e as pessoas me reconhecem como tal. talvez sejam as fotos da K. que eu coloco no facebook. irresistivelmente fofa. filhotes nascem assim pra gente ter vontade de cuidar mesmo, acho.

pra mim isso de ter filhos sempre foi uma coisa dividida. os prós e os contras se equilibravam na balança. muito se devia a alguns círculos que eu frequentava: amigos-família; amigos-contra-família. fazer uma escolha era sempre perder alguma coisa.

não dava pra imaginar ter um nenê e frequentar algumas cenas experimentais. não exatamente pelas ações. em alguma medida, por causa da exposição às escolhas de vida de algumas pessoas. um preconceito de mão dupla talvez. por exemplo, já antes da gravidez, só o fato de não consumir entorpecentes (nem álcool), fazia com que alguns artistas se incomodassem com a minha presença. isso foi coisa de conversar mesmo com os amigos. entendo algumas pessoas não admitirem presença voyeur, ou algo que pareça um confronto de moralismos. mesmo "sem julgamentos", parece que alguma coisa não se encaixa. muita gente desapareceu da minha vida depois que virei mãe. mesmo pessoas de quem gosto muito. acham inconcebível o lance familiar todo.

já os amigos-família sempre estranharam alguma coisa. os relacionamentos, uma certa tendência a lidar com imagens de morte. nascer uma criança é afirmação de vida. como lidar com a morte tão presente sempre? quando eu penso no que me atrai nessa busca, me parece uma prestação de contas com o passado. como se eu precisasse ficar atenta para fazer alguma coisa melhor agora, pras pessoas que estão vivas e perto de mim.

sinto um remorso imenso quando penso na minha avó, de não ter ficado mais tempo perto dela antes do seu falecimento. por isso fico tão próxima da minha mãe. e independente de data comemorativa, sinto uma gratidão imensa por estar aqui. depois que K. nasceu, e mesmo com o convívio com maridones e as crianças, nunca mais senti vazio no peito. me surpreendeu muito ter uma família. me percebo muito mais atenta às ambiguidades.

escolho essas imagens acima do artista japonês tatsumi orimoto pra me relacionar neste dia das mães. algumas pessoas vêem as fotos da mãe com alzheimer como um jeito de tirar proveito de algo dramático a fim de aparecer. produzir imagens assim também é um jeito de prestar atenção e ficar próximo. eu vejo ali em 'art mama', algo que queria ter feito com minha avó. não pelas imagens. o estar junto mesmo.

. desenhos .


esses dias vi isto aqui: desenhos que foram transformados em brinquedos.

brinquedo, ilustração, real. pros meninos aqui em casa, desenho animado, por exemplo, parece muito mais real do que um "filme de adulto". eles não ficam com medo da espada do samurai (adoramos filmes de samurai), mas morrem de medo da bruxa (menos a kiki) ou do inimigo ultra-poderoso do super herói. 

eles também criam categorias (com a nossa "ajuda" - repetição, claro): brinquedo, coisa perigosa, divertido, engraçado, coisa da cozinha, coisa do banheiro, faz mal, é sujo. se for colorido é brinquedo. difícil explicar alguns objetos com os quais eles não podem brincar: faca vermelha, tesoura rosa, agulha azul, cerâmica amarela. 

argila, caneta, lápis. tudo desenho. pra eles é fácil associar. demorei tanto pra entender. uma professora da faculdade teve que mostrar o arame saindo pela parede pra eu entender o desenho sem ser lápis sobre papel. dança. fotografia. objeto. que mais, que mais. independente de categorias. me interessam os modos de vida. desenho como modo de perceber e mapear estados de estar vivo.

desenhos do R. (quase 5 anos)