sábado, 9 de fevereiro de 2013

. desenho . sereia . sentido .

quando criança, eu era fascinada por sereias. adorava desenhá-las à exaustão. eu e uma prima passávamos as férias juntas, criando caudas de tecido para nossas bonecas e colando lantejoulas em desenhos no papel, para dar mais corpo às escamas da mulher peixe. ficou colada a imagem de sher vestida dessa maneira no filme e o tal desenho com a tetê espíndola. 

o que será que as crianças vão guardar na memória e acessar mais tarde? não falo dessa aproximação por nostalgia apenas, mas acho que muito dessas lembranças são também o que ao longo dos anos foi ajudando a construir sentido.

o desenho, as sereias, todos os momentos que recordo, o que se destaca magicamente das situações cotidianas; quando conseguimos prestar atenção, depois é apenas uma brincadeira de ligar os pontos e uma história de vida de configura. mesmo que seja bem diferente das biografias super coerentes que existem nos livros - e normalmente é. as sequências de ações que levam uma coisa à outra,  dificilmente vêm numa ordem linear. aparecem e somem e gritam e voltam e se pesca algo aqui ou ali. parece abstrato esse desenho, mas abstratas são as formas - se pudermos colocar assim, da nossa subjetividade.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Reflexo.

Lua sobre a água.
Sente-se sozinho.

Se as águas estiverem plácidas, a Lua será perfeitamente espelhada. Se nos aquietamos, podemos espelhar o divino perfeitamente. Mas, se participamos unicamente das atividades frenéticas dos nossos envolvimentos diários, se buscarmos impor nossos próprios esquemas à ordem natural e se nos deixarmos absorver por visões autocentradas, a superfície de nossas águas se torna turbulenta. Então, não podemos ser receptivos ao Tao.

Não há nenhum esforço que possamos fazer para nos aquietar. A verdadeira quietude vem naturalmente de momentos de solidão, nos quais permitimos que nossas mentes se assentem. Assim como a água busca o seu próprio nível, a mente gravitará rumo ao sagrado. A água turva irá clarear se permitirmos que permaneça imperturbada, assim como a mente se tornará mais clara se permirtirmos que permaneça quieta.

Nem a água nem a lua fazem esforço algum para conseguir um reflexo. Da mesma maneira, a meditação será natural e imediata.

Do livro Tao, meditações diárias.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Caminho do meio.

"There is no female Mozart because there is no female Jack the Ripper."
Camillie Paglia

Nós, mulheres, somos o caminho do meio.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Flor do Deserto


Ontem assisti ao perturbador 'Flor do Deserto'. O filme conta a história verídica de Waris Dirie, somaliana que sofreu a circuncisão feminina aos 3 anos. Aos 13 anos, vendo a irmã obrigada a aceitar o casamento de conveniência e desejando algo diferente para si, foge para a cidade em busca da avó. Andando dias no deserto sem ter o que beber e comer e escapando de um estupro ao tomar carona a caminho da cidade, é recebida pela avó como um ser especial por ter resistido a tantas provações e enviada para Londres para trabalhar como faxineira de sua tia, casada com um embaixador.

Anos passados, é descoberta pelo fotógrafo Terry Donaldson e se torna uma grande modelo de moda. Sendo então conhecida, passa a lutar contra a mutilação feminina e ao direito da mulher em existir de forma plena.

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E então, hoje pela manhã, ainda perturbada, recebo o seguinte comentário do meu marido: "Agora você sabe como me senti quando você furou a orelha de F.". Indignada profundamente, respondi quase aos berros "Isso não tem nem comparação!!""É, mas você não deu escolha a ela, e sou completamente contra a todas essas 'convenções' da sociedade".

Acabei me calando. De fato, não dei escolha a ela. Furei porque é uma menina. Tenho uma amiga que não tem as orelhas furadas porque ela acredita nos pontos vitais do corpo, como na acupuntura. E se F. se sentir violada caso ela também abrace esse estilo de vida?

Na Somália e em países islãos, a prática da circuncisão é realizada por acreditarem que a mulher se torna pura e só assim pode se casar, as que não fazem são consideradas "prostitutas". E pela pobreza desses países, os casamentos arranjados são uma forma de sustento para as famílias, por isso tão importante encontrar um homem que aceite suas filhas.

Fui pesquisar sobre essa questão na internet. E vi que apesar da coragem de Waries denunciar essa prática, pouco se fez a respeito de evitar essa violência. Afinal, o que são mulheres circuncisadas nos países mais pobres da Africa?

Sei que pouco adiantaria eu postar no facebook minha indignação: as pessoas curtiriam, apoiariam, mas nada de real e prático seria feito. Por isso escrevo este post. Porque se essa realidade é tão distante para nós, vamos tentar enxergar com olhos mais abertos para nós mesmos, assim conseguimos nos sensibilizar. Será que também não submetemos nossos filhos a 'mutilações' psicológicas, desejando que se tornem pessoas "bem-sucedidas", competitivas, podamos a liberdade de escolha deles em ações sutis e aparentemente inocentes.

Se queremos um mundo diferente, temos que começar a transformar a partir de nós mesmas.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Por um fio

Por um fio, da série Fotopoemação, 1976/2010 
Ana Maria Maiolino
ampliação digital de fotografia em preto e branco

52 x 79 cm


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Neurose


  

Há não muito tempo atrás, para alguém ver minhas fotos de infância, a pessoa tinha que estar sentada na sala da minha casa, abrir o armário (que era obstruído por uma mesa, eu tinha que arrastar a mesa para poder abrí-lo), pegar o álbum e - geralmente - eu acompanhava o folhear das páginas, fazendo as vezes da legenda das fotos.

Quando dou um scroll pelo facebook e vejo as fotos dos filhos que meus amigos postam, algumas me deixam em pânico. O filho fazendo o seu primeiro pipi sentado na privada, a filha tomando banho, os brinquedos ganhados no aniversário, o evento na escola. E quem está folheando todos esses álbuns, será que temos mesmo o controle de tudo isso? Acompanho blogs de mães, está tudo ali descrito, a primeira papinha, quando deu o primeiro passo... coisas que só pessoas muito próximas, que frequentavam a minha casa, sabiam de mim. Eu sinceramente não sei o efeito para os filhos de nascerem e crescerem com essas "intimidades" tão expostas.

Sou uma pessimista.

domingo, 7 de outubro de 2012

. dia, mês, ano .












1 ano. mesmo prestando atenção, tem coisas que o cotidiano não nos deixa perceber. aniversário, rito de passagem: um ano se passou. o que aconteceu, o que mudou, o que ficou. claro que eu percebi que as roupinhas já não cabiam mais. sentou. levantou. aumentou a quantidade de comida - e mudou o tipo dela. deu passos. andou. se desloca pra onde quer. chora mais. chora menos. dorme. reclama. sorri e gargalha. brinca. imita e testa nossas reações. 

coisa simples em casa. era pra ser nano festa. como ninguem confirmou presença, achei que viriam os parentes, pouca gente. mais de quarenta pessoas no apartamento. k. já tinha aprendido a bater palmas, então quando cantaram 'parabéns', abriu um sorriso e deu gritos batendo as mãos. uma verdadeira festa.

o tempo da criança é uma martelada nas nossas percepções. tudo é marcado. quando uma coisa nova acontece, é sempre uma ficha caindo. a primeira vez que. as coisas todas que fazemos sem perceber pra eles é um grande desafio. e vencidos, determinam em ações as metáforas das nossas próprias conquistas.

no dia-a-dia ainda não consegui me adaptar com a rotina casa, crianças e outras atividades. tudo uma grande bagunça. as dúvidas, que antes eram muitas, continuam existindo. mas mais amigas se tornaram mães, outras famílias em contato, e todas as figurinhas trocadas foram acalmando tanta ansiedade. bem mais calma, esse estado de espirito tem deixado mais leves os dias atarefados de dormir tarde e acordar cedo.

tão cansada. tão feliz. vai entender.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012


Tenho estado muito pouco aqui. Com a menor começando a comer e engatinhar, grande parte do tempo tenho me dedicado a preparar a papinha e a tomar cuidados para evitar qualquer acidente.

A segunda filha é a segunda chance da mãe: é a oportunidade de fazer coisas que eu achava que poderia ter feito melhor e conseguir. É o momento de repensar algumas idéias que se instalaram na sua cabeça com o primeiro rebento e descobrir que elas não eram verdades universais.

 Tenho trabalhado muito no 'lar' e pouco na 'profissão', por isso resolvi acordar alguns sentidos meus que estavam parados. Ler ou desenhar são tarefas mais raras porque exigem muito da minha atenção, então comecei a usar mais o ouvido: entre uma mamada e outra deixo rolando uma palestra do Café Filosófico para escutar e esta aqui da Rosely Sayão é ótima para refletir sobre a educação dos filhos: Clique aqui.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

quando nascem as estrelas



Minha avó foi o meu primeiro contato consciente com a morte. Já tinha ido no funeral de uma tia, mas na época não entendia absolutamente nada do que estava acontecendo. Não entendi porque ela tinha algodões no nariz e a única diversão naquele lugar era brincar entre as colunas que sustentavam o caixão.

Voltando a morte da minha avó, eu tinha acabado de voltar do primeiro dia da escola e recebemos um telefonema. Minha irmã mais velha atendeu e ficou muito nervosa, disse que a avó estava muito doente. Minha mãe sabe-se lá para onde tinha ido, não voltava. Quando voltou, minha irmã foi falar com ela, que rapidamente começou a fazer outros telefonemas e de repente começou a fazer as malas, separar roupas. E disse "esta é para o funeral". Na minha ingenuidade, pensei "como ela sabe que a vovó vai morrer?". Mas eu fiquei feliz, porque viajar para a casa da minha avó sempre era muito bom.

A viagem foi tensa. Insetos, mariposas e borboletas iam se espatifando no vidro do carro, atraídas pela luz do farol. Costumávamos viajar de manhã, mas desta vez saímos depois do almoço, chegamos já estava escuro. A casa estava toda iluminada e aberta. Gritei contente pelo nome da minha tia que morava com a avó. Minha irmã me olhou com reprovação. Não entendia.

Entramos e minha mãe se abraçou com meu tio. Fui para o quarto da minha avó. Vazio. Comecei a entender. Lágrimas começaram a correr pelo meu rosto.

Enfim, depois de muito choro, flores, terra, missa, veio a festa. Os xintoístas comemoram nos funerais. Era estranho estar comendo, bebendo e até rindo ali entre parentes. Me disseram que a tradição é comemorar todos os anos, até completar talvez 40 ou 50 anos - não lembro ao certo. Comentaram o caso de uma conhecida que organizou a festa de um parente que nem chegou a conhecer, apenas para manter a tradição.

A Mai já falou aqui e é algo que também já refleti muito: tendo uma explosão de vida como um bebê dentro de casa, é praticamente impossível não pensar na sua antítese; novas gerações chegam e as velhas precisam dar passagem. Essa é a lei da natureza.

 Hoje fiquei sabendo do falecimento da minha sogra, uma nova estrela brilha no céu.

terça-feira, 31 de julho de 2012

. fragilidade e resistência .



o prato na cozinha no armário na pia sobre a mesa. acidente cai quebra. desenhos. ela não pode ficar aqui é perigoso pode se cortar ou colocar os pequenos cacos dentro da boca engolir coisa pior.

aqui deixo de escrever muitas coisas. as dúvidas mais importantes acabo guardando, sem coragem de buscar, de expor. um jeito de me aproximar dessas questões como imagens de troca: dizer que existem fragilidades, mesmo que não se toque propriamente no assunto. tão impressionante ver os dias passando e tudo o que me parece natural, normal, cotidiano, pra ela é um evento, uma descoberta, a vida inteira. e é nessa beleza que encontro a coragem e o medo que sinto sendo mãe dela.

 - pelo menos procuro buscar isso, sempre que consigo prestar atenção - 

. exercícios de atenção . 

preparar a comida (sopa ou papinha), colocar nos potinhos, esperar esfriar, colocar as tampas, congelar, deixar dois potinhos na geladeira, temperar com alho e salsinha na panela todos os dias, antes de servir, lavar as mamadeiras, a chupeta, ferve-las, colocar água filtrada fervida na garrafa térmica, sete medidas de fórmula no pote medidor, tirar a fralda sem derrubar o cocô antes de fazer mais xixi, limpar bem por o creme de assaduras, colocar a fralda, colocar ou tirar a roupinha, as roupas são tão pequenas no varal, segurar a cabeça na inclinação certa para não entrar shampoo no olho, na orelha a água o cotonete a toalha de banho limpa, a temperatura do leite da papinha da água do banho, os brinquedos e o que pode virar brinquedo neste momento porque esqueci de trazer, música e dança ela dança eu tento perder o medo de dançar e penso em dançar mais e dançar quando for velha como se fosse algo sério de se apresentar para um público, será que ela vai dançar desenhar crescer feliz, acalmar o choro descobrir o porquê, tão bom o cheiro quando ela deita sobre o peito quando ela dorme junto comigo mas ela deve dormir no quarto dela, as outras crianças marido avó parentes meus afetos perto longe vontades o que tem de ser feito ponto.